Página Principal
Psicologia
 
 
 
 
 
 
 
 
É difícil passar despercebido que a lista dos livros mais vendidos em todo o país, já a algum tempo, está invadida por um fenômeno editorial singular, os mais vendidos são livros que, na falta de uma definição mais precisa, são chamados de livros de auto-ajuda.
A intelligenzia parece se contentar em desqualificar tanto os autores como os consumidores. Ficam os autores classificados como uma versão a mais dos vendedores de esperança e ilusões.
Uma reportagem classificou-a como filosofia de pára-choque de caminhão, ilustrativo da maneira de desmerecimento e ironia com que parte da mídia trata do caso.
De uma maneira muito esquemática podemos dividir a literatura de auto-ajuda em dois ramos:
- O laico: prega a saída pelo sucesso individual e usa como parâmetro a performance e a inserção efetiva do sujeito na circulação pelos valores sociais estabelecidos.
- O místico: contenta-se com um aperfeiçoamento espiritual do sujeito, com uma busca pelo equilíbrio e pela paz interior.
Nenhum dos dois tipos abre mão de deixar claro que pertenceríamos a um universo organizado e com um sentido definido, haveria um rumo que nos escaparia no todo mas que estaria de alguma forma presente. Desta maneira deixamos de perceber o fio de continuidade que há com o nosso patrimônio intelectual.
O primeiro aspecto que chama a atenção é que retira-se energia do futuro. Já que cada um de nós não é grande coisa, a proposta é nos identificarmos com a maravilha que seremos um dia. Embora, é claro, o autor seja um modelo de identificação (e se esforça para isso, pois o sucesso do autor é sempre mencionado). Porém, levar a autonomia às extremas conseqüências é prescindir de todo modelo identificatório. Então vive-se do que seremos um dia se levarmos todas essas receitas até o fim. Na verdade, se isso funciona não é bem o futuro que está em questão. O que nos toca, o que faz com que cada um possa crer que possa vir a ser uma fortaleza psíquica deve-se ao fato de que já imaginou ter sido um dia assim. É uma tentativa de ressuscitar a onipotência infantil com alguns de seus correlativos como o pensamento mágico.
Salta aos olhos que essa literatura alimenta e se alimenta de um incremento do que seja dito amor próprio. Todo objetivo é fazer crer ao leitor que ele é alguém digno de ser amado por si mesmo.
Para esses autores, não estaríamos totalmente abandonados por Deus à própria sorte; acaba sendo uma moral na qual quem realmente se esforça será eleito.
Trata-se de uma literatura que vem ensinar a amar e ser amado, vem detectar a falta de troca amorosa neste nosso mundo e receita o amor como antídoto a quase todos os males. Vem apontar o mal-estar civilizatório como uma falha no gozo. Persegue então uma melhora no amor sensual e romântico do par de amantes. Por outro lado, trata das dificuldades sexuais do casal, seja ele montado como for: afinal não é uma literatura moralista, é herdeira da tradição liberal quanto aos costumes das décadas passadas. Chama atenção a confusão entre amor e sexo, e geralmente não se percebe qual destes o autor sugere que anda mal.
Todos estes livros não são um fenômeno novo; existem a décadas, mas nunca estivera tão em voga, pelo menos no Brasil.
Paralelamente, a essa emergência há uma crescente especialização desses livros. Originalmente tratava-se de uma ajuda genérica para a alma afligida de um infeliz qualquer que procurava auxílio para enfrentar o mal-estar contemporâneo. Agora existe uma maior abrangência temática. Nos Estados Unidos, estão a disposição livros para cada tipo de situação: para deprimidos, relacionamento, obesos insatisfeitos, AIDS, enfim para qualquer dos reveses do destino há sempre uma obra para orientar como sair-se melhor.
A literatura de auto-ajuda é de fácil discriminação: é aquela que se apresenta como a que realmente vai ajudar o leitor a conseguir o que quer. Com a vantagem de que caso ocorra que o leitor não saiba o que quer, essa literatura sabe o que é bom para ele. É aquela que chegou para dizer a boa nova: qualquer um pode desejar qualquer coisa. Se alguém realmente quiser alguma coisa, tiver a audácia de admitir isso e trabalhar para tal, conseguirá. Não haveriam limites para um sujeito determinado. Mas ela não vai ajudar se o alvo for pequeno, ela trabalha com grandes conquistas, com o sucesso mesmo e sem meias medidas. Quem não quiser tudo não terá nada. Não importa qual o problema, ela sempre tem a solução. O leitor deve colaborar acreditando, mas tem que acreditar mesmo, e se seguir acreditando chegará lá. Se não chegar é porque faltou fé no método. Não se pode parar de acreditar, essa é uma das lições fundamentais: a cota da esperança deve ser mantida sempre alta, o sujeito deve estar sempre para cima, só deste estado de espírito "positivo", embora não se esclareça muito bem o que é, já se espera grandes resultados.
Nesta literatura qualquer um poderia ser o responsável pelo seu destino, o sujeito faria a sua história, portanto não deve queixar-se e sim trabalhar para ter o que quer. É um decidido abandono de qualquer posição queixosa histérica. Não há ponto de partida ruim; de onde alguém está deve começar, sem fazer maiores críticas ao que herdou ou não herdou. O nascimento em alguma classe ou lar mais ou menos privilegiado pouco significa, mas sim a determinação do sujeito.
Trata-se de uma literatura que acredita que a saída para os mais variados impasses da vida está em apelar para nós mesmos. Acredita que toda força provém de nosso íntimo, pois perdidos que estamos nas demandas alheias não perceberíamos nosso verdadeiro potencial. Com fé e auto-disciplina conseguiríamos tudo que almejássemos. Se há valorização da autonomia, a própria literatura não sofre nenhuma influência, não tem nenhuma referência. Basta abrir qualquer livro desses para notar a falta de notas de referência, de notas, de qualquer coisa que remeta para os outros livros que certamente os inspiram. Cada livro parece ser o primeiro da série. A filiação não conta para esses autores, afinal se somos feitos por nós mesmos do que valem as referências paternas?
Mas, então porque tantas pessoas estão consumindo essa ideologia? Tantos não podem estar errados todo o tempo, e se os autores são tomados como profetas de fato talvez o sejam.
É certo que nessa literatura qualquer um encontra sua própria imagem idealizada, de alguém forte e decidido, sem fendas, que sabe o que quer e solitariamente busca com afinco os seus objetivos. É também certo que eles falam exatamente aquilo que queremos ouvir.
Os livros de auto-ajuda não podem ser considerados nocivos a alguém, afinal só introduziria de modo direto o infeliz leitor nas crenças de seu tempo. Se não descaminha tampouco retira alguém da deriva. O que pode se revelar é o fato destes livros serem uma boa perda de tempo, um caminho que parte de lugar nenhum e chega ao nada. Ainda por cima certamente ajuda a incrementar nossa solidão contemporânea que, convenhamos, não precisa de vitaminas. E por último, sabemos que a produção, a criação, o sublime nunca andaram junto com a adoração das deidades umbilicais.

_______________________________________________________________________________________________________

 


CORSO, Mário - Uma Investigação sobre a Influência da Literatura de Auto-Ajuda.
Uma Investigação Sobre a Influência da Literatura de Auto-Ajuda
" O conteúdo deste site é de caráter informativo, não pretendendo substituir, de forma alguma, as consultas periódicas aos profissionais especializados."

© Todos os direitos reservados aos respectivos autores - 2003